domingo, 17 de outubro de 2010
st nicolau, lágrimas de despedida
se algum dia o amor transbordou
(de minha taça)
hoje ele é tímido e vacilante
por ter manchado de roxo
um suéter branco.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
filosofia de gaveta 2 *
O homem manso: um relato.
Desenvolvimento: Diante de estudos e também especulações de teóricos importantes a respeito do assunto, é possível afirmar que durante grande parte da história humana a natureza teve um papel relevante em sua cultura. Nesse período, pode-se notar, os eventos naturais causavam um misto de admiração, respeito e principalmente medo. Templos e outros registros podem ser encontrados em adoração ao sol e à lua, e as tempestades e as cheias. Mas, de acordo com o analisado, não obstante nossa falta de material, algo aconteceu e mudou radicalmente a compressão humana sobre o que nós decidimos chamar de natureza. O respeito e a reverência mudaram de tom. O homem, quando resolveu dessecar a natureza e estudá-la minuciosamente, perdeu suas referências mais íntimas; num movimento rebelde quis se tornar dono daquilo de onde provinha. Os paradoxos não pararam por ai. Para nosso estudo fazer um completo sentido, deveríamos esclarecer os pormenores dessa mudança. Algumas perguntas ainda ficam no ar e serão respondidas ao longo dessa dissertação, se possível.
Todas as evidências nos levam a crer que a espécie humana obteve êxito devido a sua coragem. Alguns argumentam que a inteligência seria parte de processo importante nessa ascensão, inclusive estudos muito sérios de anatomia comparativa indicam que a raça humana tinha uma massa encefálica sensivelmente maior capaz de auxiliá-los em empreendimentos intelectuais. Nós não descartamos essa hipótese, apesar de ainda acharmos que a coragem não pode ser deixada de lado, visto que a musculatura humana estudada não é robusta. A maioria dos exemplares é mal desenvolvida ou com excesso de tecido adiposo.
No decorrer dos séculos, talvez entre os séculos da LUZ E DA GLÓRIA e, possivelmente, TRIUNFAL XVI, ocorreu um contrato tácito ou explícito(não se sabe ao certo) para uma maciça domesticação de todos os exemplares. Em vez da caça e da violência, outros valores passaram a serem mais bem vistos, como por exemplo, a benevolência entre os membros e o conforto geral de seus exemplares. Houve uma produção grande de alimentos cuja abrangência era significativa. A vida livre, dançante e violenta foi substituída por aglomerados parecidos com caixotes que eram comandados de acordo com uma conduta de norma específica. O homem conquistava sua emancipação. Não havia problemas com a escassez de alimento e sempre se encontrava protegido de eventuais forças da natureza ou mesmo de animais. Só que essa domesticação não fez bem ao homem. A falta do perigo tornou a vida cinza. A depressão foi diagnosticada como um irrefutável desânimo. Quase ninguém saia mais de casa. O governo ordenou que grades super resistentes fossem instaladas em todos os prédios para tentar conter a onda de suicídio corrente.
Esse foi um breve resumo parte integrante de uma monografia da universidade de plutão xvii para elucidar o problema do fim da raça humana.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
filosofia de gaveta*
De acordo com a proposta do espaço, incitaremos uma discussão a partir de uma idéia de interesse de algum filósofo, mas sem o rigor da academia. Por isso, filosofia de gaveta, filosofia esquecida, filosofia alcoólica. Aqui não é o espaço para grandes estudos nem tampouco comparações e análises sistemáticas sobre a verdade e a salvação humana. Já de antemão nos privamos dessa responsabilidade mesmo porque pensamos que o melhor lugar para a instrução é o banheiro, e só tem tempo de ficar inteligente quem sofre do intestino. Muito melhor que escrever ou ler é se distrair ou beber, entre outras coisas. A leitura, confesso, acontece por uma necessidade quase fisiológica de se criar mundos, assim como no processo da escrita. Nós precisamos da narrativa para que não fiquemos todos loucos e suicidas. A literatura, de Dostoiévski aos evangelhos, nos convence de que o mundo tem um sentido determinado. Que a relação causa-efeito não é uma mera abstração de uma mente doentia. Desse modo, o mundo se torna tão crível quanto um romance escrito há quinhentos anos. É assustador como um livro escrito por alguém tão distante tenha mais sentido do que nossa própria vida no instante atual. Quando se trata da vida, ela crua como tem que ser, não cabe num romance, nem palavras podem defini-la. Acordo deprimido com gosto de guarda chuva na boca. Com cabelo amassado me dirijo à geladeira. Pego um resto de coca cola sem gás e bebo com vontade; nesse meio tempo um passarinho meio esverdeado aparece em meu apartamento e come algumas migalhas no chão e vai embora. Se fosse num filme, esse pássaro com certeza retornaria e justificaria sua aparição por algum motivo, mas na vida não. Ele simplesmente aparece come e vai embora.
Essa idéia, como se pode ver, não chega a ser completamente minha. Na verdade, não é de outra pessoa específica. Se existe referências nesse espaço é em relação à vida, a vida é o importante e não a teoria. Kant teve imensa importância para o desenvolvimento da filosofia moderna. Entretanto, seu ponto mais interessante é que ele era metódico, quase nunca saiu de sua cidade e ainda há rumores de que morreu virgem. Será que se fosse desencabaçado escreveria uma quarta crítica?
Schopenhauer é acusado de pessimista. Esse rótulo pode lhe cair bem, mas se alguém adentrar em seus devaneios verá que seu pessimismo nada mais é do que um aguçado senso de humor(negro). E que é quase impossível não concordar com sua teoria sobre a insatisfação e a dor humana. O pêndulo ao qual estamos todos fadados. O pêndulo diz: insatisfação e tédio. Insatisfação e tédio. Não estaria Schopenhauer nos dando carta branca para viver justamente ao afirmar que o mundo é um palco no qual se encena tragédias?
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Sartre e a Liberdade
sexta-feira, 16 de julho de 2010
a história do velho bandido
Sergio- calma ai marlu, porra, assim você me deixa puto. Eu dou meu sangue para ser alguém, para conseguir gravar meu disco, tento falar com pessoas, você acha que eu aqui enfurnado em Vitória vou conseguir alguma coisa? Eu já te disse, mas você parece que não entende, que é burra, porra, estou numa fase ótima, tenho já umas sete músicas prontas e arranjadas para o possível próximo LP. Se chamará cruel. Assim como nosso amor, assim como esse porre que nos acomete e nos obriga a essa discussão inútil.
Marlú- fase boa porra nenhuma, você só sabe é beber, olha como está magro, parece que não come, daqui uns dias pega uma gripe e morre, assim, do nada, de tão frágil que está. Talvez ai você iria coroar essa vidinha de merda que leva desde que nos conhecemos.
Sérgio. Sua piranha de uma merda, só não te meto a mão na cara pois não quero ver confusão para o meu lado. Estou pouco me fudendo para suas reclamaçõezinhas. Não posso acreditar nisso, me meto numa porra de um ônibus e o que eu ganho? Só reclamação. PUTA DESVAIRADA, QUE SÓ ME CATIVA POR CAUSA DESSA SUA BUCETA IRRESISTÍVEL. PUTA. MIL VEZES PUTA!
Depois que ouvi essas palavras, fiquei espantado, deslumbrado. Havia tempo que não presenciava uma manifestação tão certa de que a vida é realmente intensa. De que tudo está nos ares, que o sangue tem um gosto de ferrugem embriagador. Continuei, pois, deitado no mesmo lugar. Foi quando a porta subitamente se abriu e eu fechei meus olhos. Quando os abri, pude ver quem era. Apesar da meia luz pude enxergar Sérgio Sampaio com uma garrafa de orloff na mão tendo muita dificuldade em se manter de pé, escorado no corrimão de uma escada. Veio ter comigo e me chamou. “rapaz, rapaz”, ele disse. “ainda está acordado, pode me ajudar?” eu respondi que sim, que ainda estava acordado e perguntei o que ele queria. Ele apontou para uma agenda telefônica e disse: “pega aquela agenda para mim, liga para o Erasmo que eu quero falar com ele”. Essas foram suas últimas palavras aquele dia, eu olhei a agenda. O Erasmo era Erasmo Carlos, e eu me perguntando que diabos Sérgio Sampaio queria falar com ele aquela hora da madrugada. Não sei, morrerei sem saber, depois de me pedir esse favor, Sérgio começou a apagar, ele já estava bêbado demais, ele estava exausto e pouco a pouco foi escorregando em direção ao chão. Aquela cena foi impressionante. Eu vi o poeta maldito deitar sobre sua magra sombra e sorrir por fim como quem debocha da vida. Nunca me esqueço daquele dia. Ele deitado do meu lado e eu pensando em marlú. Que mulher incrível.
sábado, 15 de maio de 2010
Ménage à trois,
quinta-feira, 29 de abril de 2010
apontamentos sobre o delírio, incompletos
3- Escrever e beber. Nada pode ser mais prazeroso. Nenhuma vida mais digna. Nós, escritores, precisamos de paz. Ócio. De fúria, depressão. É preciso estar na lama para escrever algo relevante. Ou, então, que esteja tudo ao contrário disto. Digamos, estabilidade. Nessa perspectiva, a escrita é promissora. Casamento indo como manda o figurino. Notas boas enquanto estudante, emprego decente. Nada de espetacular, mas algo que te garanta alguns trocados como aposentadoria. É ai que se vê que nossa situação, enquanto ente existente-consciente, é muito mais dramática do que gostaríamos de acreditar. Não há saída. Nem salvação. A sociedade tenta nos ensinar como ser feliz. Através de pré-concepções infiltradas em nosso inconsciente, somos obrigados a acreditar que a humanidade tem um sentido. Que nós estamos indo para algum lugar, afinal. Tudo para mascarar a enorme irrelevância da vida. Para ocultar o que, de fato, somos: imersos numa onda de incongruências.
4- Se é que isso pode ser considerado uma introdução, como se eu tivesse, da mesma forma, vontade e habilidade para que esse relato siga uma seqüência cronológica ou mesmo verossímil. Pode começar a ler da última página. Ou feche os olhos e sinta o cheiro das folhas.
5- Demos, pois, prosseguimento ao relato. Devido à um lápis quebrado, continuo, agora, com uma caneta. Então é isso. É preciso viver. Temos que trabalhar. A sociedade nos impõe uma função. Uns escrevem, outros vendem coisas. E o pior é que nós mesmos nos impomos essas tarefas. Ninguém está satisfeito com a mediocridade. Todos querem algo a mais. Algo que nos diferencie da grande massa. Pode ser um talento artístico ou um olho azul. Falo com deboche dessas concepções, mas até eu gostaria de ser alguém. Penso, como todos: “já que nasci mesmo, com um nome e um corpo e fui lançado nesse palco onde só se encenam dramas para os deuses ficarem rindo e bebendo absinto, que me fizessem ao menos uma espécie de semi deus, alguém com um jeito diferente de dizer as coisas. Um escritor deprimido. Talvez seja isso.”
6- Amor-cão do inferno. Essa frase dita por Buk me marcou bastante. Não há sossego, como diria o velho filólogo. O amor quer sempre mais. A sede do mar. Teria sido Schopenhauer? Pode ser... a imagem do pêndulo é uma das mais simples e fascinantes da filosofia. “ os seres humanos estão fadados a, como um pêndulo, transitarem entre a necessidade e o tédio”. Nada é garantido. O amor não pode ser como querem nos ensinar. Não faz sentido o casamento, a fidelidade, a proibição do incesto, a luta contra a pedofilia. São barreiras que tentam construir para que o verdadeiro homem não venha à tona. A razão é uma falácia. Os estóicos, junto com os padres, devem ser queimados. O verdadeiro homem é carnívoro. O verdadeiro homem é guerreiro. Ainda, em sonhos, temos saudade do gosto sangue em nossas bocas. O que é o amor? Dizem que é serenidade, cumplicidade, deixar o outro em liberdade. Para mim, amor é uma paixão que virou preguiça.
7- Nos dias de hoje nada mais justo do que sermos saudáveis. Nem que, para isso, nos tornem deprimidos, loucos ou assassinos. Viver de acordo com a ciência. Comer mil e trezentas calorias, largar o cigarro, tomar um cálice de vinho pela noite. O individuo que inventou esse padrão de vida só pode ser um neurótico. Que se foda o coração. Bom mesmo é perder-se, liberdade. O resto é bobagem. A idéia do consumo me causa agonia. Pequenos objetos. Não precisamos de nada disso. É preciso que haja algum combate. Talvez um terremoto me deixaria mais calmo. Por isso bebo, todas as noites. Com a lua e as putas.
8- Por isso, não há como combater o crack. Quem não sabe seja ele o responsável por uma tomada abrupta de consciência. Fuma-se crack hoje por tédio. Não por falta de informação como querem os homens da t.v. tédio. O mais profundo tédio. Viver não faz sentido. Melhor é encomendar a própria morte com um cachimbo na boca. O rock and roll morreu. A música, de uma maneira geral, caduca. Por isso tenho medo do que está por vir. Tudo está em crise. Crise de identidade, financeira, conjugal, ambiental. Ufa. Mas o petróleo ainda é o combustível. Graças ao deus texano. Será que estamos no apogeu?
9- Uma intuição muito forte me diz o que é o amor. Parece que uma voz nitidamente sopra-me ao ouvidos um dos segredos mais antigos da humanidade. Mas calma. Não irei revelá-lo assim tão fácil. Perderia o emprego e seria queimado em praça pública. Me parece que o amor é multiforme. Com incremento de vários outros afetos, entre eles a loucura, a raiva, a inveja, a dor, o causar a dor. Amor tem que ser tensão. Corda estendida entre a morte e a miséria. Senão vira construção intelectual fadada ao fracasso. Werther, se fosse correspondido, veria que a boceta de sua amada não cheirava lá tão bem. Amor é metafísica. É vontade de eternidade. É essência. Assim como todas as religiões, deve morrer.
10- Nada me tira da cabeça que a senhorita Laura quer meter comigo. Esse pensamento me deixa feliz. Afinal de contas, essa cabrita tem um pedaço de carne que não pode ser desperdiçado. Laura é uma bela boceta. Negra. Não. Quase negra. Com seus pelos fartos, deve ser um furação na cama. Penso sobre isso e fico apreensivo. A vontade que me dá é de pegar o telefone e falar tudo o que gostaria de lhe dizer. Foder com ela durante a noite toda. Entre vinho e maconha. Apesar de ela ser muito delicada ao falar e usar roupas delicadas, não me engana. Senhor Claudio Rodriguez. Sou um pervertido. Não sou muito de me exibir, mas não resisto à posição de voyeur. Há uma semana falei com minha amiga Lourena para poder vê-la fazendo sexo com outra amiga minha. Larissa. Ela(s) aceitou. Eu prometi que me comportaria. Mesmo Lourena tendo namorado, quando bebe vodka, gosta é de perereca. Ela é o macho. Um lindo macho, haja vista.