sexta-feira, 16 de julho de 2010

a história do velho bandido

final dos anos oitenta. Estávamos eu, Marlú e Sérgio em um bar aqui mesmo em Vitória. Pela brevidade imposta pelo relato, pouparei alguns detalhes irrelevantes, mesmo por que isso prestes a ser relatado não chega a ser uma estória. O final não nos diz absolutamente nada, nada de impressionante, nenhuma metáfora que deixará o leitor mais humano ou qualquer outra bobagem intelectual. O relevante é que na época tinha acabado de conhecer marlú na boemia dessa cidade. Ela era uma mulher de meia idade, com seus trinta e poucos anos. Mas era bela, como todos poderiam concordar comigo, caso a vissem naquela noite. Nem sei aonde estará marlú hoje em dia. Deve ser uma velha melancólica assim como eu e talvez ela esteja escrevendo um livro insignificante como esse. Mas aquela era a noite de marlú. Estava deslumbrante com um vestido negro, poucos acessórios dos quais não consigo me lembrar com exatidão. Marlú, como pude comprovar diversas vezes, era econômica nos apetrechos, pouca maquiagem, as vezes passava um leve batom, ou então nem isso. Mas ela não necessitava dessas irrelevâncias, seu cabelo era liso e por isso mesmo ela quase nunca o penteava e ele sempre estava impecável. Sérgio era seu então namorado, ele chegara do rio poucos dias antes para visitá-la. Por enquanto é isso o que posso dizer desse incandescente casal. Já se passava das três da manhã e estávamos todos bêbados e cansados em uma mesa de bar. Aquele bar estava sem sentido, restavam poucas pessoas, o dono do estabelecimento já implorava para que nos mandássemos daquela espelunca. E foi o que fizemos. Tomamos nossa última cerveja e Sérgio levou em sua mão a garrafa de vodka degustada por ele durante nossa estadia. Chegamos à casa de Marlú. Uma casa simples de três cômodos em um bairro meio afastado do bar onde tomamos nossas biritas. Sérgio foi direto para o quarto enquanto Marlú vagarosamente arruma um simples porém confortável colchão para eu “esticar meu epitáfio”. Apesar da bebedeira, Marlú fez tudo com muito capricho. Colocou o colchão em um canto da sala, arrumou um lençol limpo, deu-me um travesseiro e uma coberta pois a noite estava relativamente fria. Fiquei pasmo com aquela situação. Essa mulher é incrível, pensei comigo. Dei graças ao diabo Pois estava a sós com ela e pude admirá-la tranquilamente, enquanto Sérgio fazia não sei o que. Lembro de sua mão, delicada, morena e com esmalte vermelho, fora isso pouco me sobra daquela irrisória noite. Fui deitar-me, tinha muito álcool no sangue para metabolizar, minha cabeça girava no embalo alucinante da embriaguez desmedida. Mal pude pegar no sono e ouvi sons vindo do quarto. Eram gritos de desespero, amor, despedida, tesão, saudade, arte, era a voz da vodka a colocar delírio na boca de ambos. Não fiz nada, apenas fiquei aonde estava e esperei que as coisas se resolvessem sozinhas. Infelizmente, pouco posso reproduzir desse diálogo. Lembro apenas de fragmentos, tenho receio de que minha vida tenha sido até agora um dramático fragmento. Mas deixemos de divagações.
Marlú- O que me deixa confusa, Sérgio, é essa vida que vive. Você diz ser o amor da minha vida, mas nem você, realmente acredita no amor. Eu já disse e posso repetir mil vezes: você é a pessoa mais talentosa que conheço, só que você não faz nada para que isso deixa de ser apenas um talento e se torne realidade. Você tem amigos no rio de janeiro que tocam e coisa e tal e também tem discos gravados por gravadoras etc. e você? O que pode me dizer de concreto de seu futuro enquanto músico, enquanto ser humano. Por mais que eu também goste dessa porralocagem na qual vivemos, sinto falta de estabilidade, preciso de coisas, não tenho um puto no bolso. Você acha que eu estou satisfeita com a situação? EU NÃO AGUENTO MAIS. ESTOU A PONTO DE TER UM SURTO DE LOUCURA. MINHA VIDA ESTÁ UM CAOS, JÁ NÃO AGUENTO ESSA VIZINHAÇA FUXIQUEIRA DO CARALHO. VOCÊ LÁ NA PUTA QUE O PARIU, QUASE NÃO ME DÁ SATISFAÇÃO. NÃO SEI QUEM É VOCÊ NA PORRA DO RIO DE JANEIRO!!
Sergio- calma ai marlu, porra, assim você me deixa puto. Eu dou meu sangue para ser alguém, para conseguir gravar meu disco, tento falar com pessoas, você acha que eu aqui enfurnado em Vitória vou conseguir alguma coisa? Eu já te disse, mas você parece que não entende, que é burra, porra, estou numa fase ótima, tenho já umas sete músicas prontas e arranjadas para o possível próximo LP. Se chamará cruel. Assim como nosso amor, assim como esse porre que nos acomete e nos obriga a essa discussão inútil.
Marlú- fase boa porra nenhuma, você só sabe é beber, olha como está magro, parece que não come, daqui uns dias pega uma gripe e morre, assim, do nada, de tão frágil que está. Talvez ai você iria coroar essa vidinha de merda que leva desde que nos conhecemos.
Sérgio. Sua piranha de uma merda, só não te meto a mão na cara pois não quero ver confusão para o meu lado. Estou pouco me fudendo para suas reclamaçõezinhas. Não posso acreditar nisso, me meto numa porra de um ônibus e o que eu ganho? Só reclamação. PUTA DESVAIRADA, QUE SÓ ME CATIVA POR CAUSA DESSA SUA BUCETA IRRESISTÍVEL. PUTA. MIL VEZES PUTA!
Depois que ouvi essas palavras, fiquei espantado, deslumbrado. Havia tempo que não presenciava uma manifestação tão certa de que a vida é realmente intensa. De que tudo está nos ares, que o sangue tem um gosto de ferrugem embriagador. Continuei, pois, deitado no mesmo lugar. Foi quando a porta subitamente se abriu e eu fechei meus olhos. Quando os abri, pude ver quem era. Apesar da meia luz pude enxergar Sérgio Sampaio com uma garrafa de orloff na mão tendo muita dificuldade em se manter de pé, escorado no corrimão de uma escada. Veio ter comigo e me chamou. “rapaz, rapaz”, ele disse. “ainda está acordado, pode me ajudar?” eu respondi que sim, que ainda estava acordado e perguntei o que ele queria. Ele apontou para uma agenda telefônica e disse: “pega aquela agenda para mim, liga para o Erasmo que eu quero falar com ele”. Essas foram suas últimas palavras aquele dia, eu olhei a agenda. O Erasmo era Erasmo Carlos, e eu me perguntando que diabos Sérgio Sampaio queria falar com ele aquela hora da madrugada. Não sei, morrerei sem saber, depois de me pedir esse favor, Sérgio começou a apagar, ele já estava bêbado demais, ele estava exausto e pouco a pouco foi escorregando em direção ao chão. Aquela cena foi impressionante. Eu vi o poeta maldito deitar sobre sua magra sombra e sorrir por fim como quem debocha da vida. Nunca me esqueço daquele dia. Ele deitado do meu lado e eu pensando em marlú. Que mulher incrível.

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